O blog não morreu. Eu apenas estava (e ainda estou) extremamente ocupado com uma porrada de coisas.
Faltam 3 semanas pra entregar meu projeto no Google, e ainda estou na fase de descobrir exatamente o que é pra fazer (meus coordenadores também não têm muita certeza, hahaha), mas as coisas tão convergindo para um possível sucesso
Além disso, estou fazendo um projeto que é uma plataforma de ensino à distância especializado no aprendizado de programação. Estou fazendo isso como projeto para a única matéria que estou fazendo na Unicamp (Estudo Dirigido), mas certamente o projeto continua se prolongando depois que terminar a matéria, é algo bem interessante e um ótimo trabalho voluntário.
Além disso, estamos fazendo os preparativos finais pra final brasileira da Maratona de Programação, que será realizada dia 15 de Novembro, em Vila Velha-ES.
Dadas as chamadas, vamos às notícias.
Menos de um mês
Meu vôo de volta para o Brasil sai aqui de São Francisco às 6 da manhã (!) do dia 7 de Novembro, e devo chegar em Guarulhos às 8 da manhã do dia 8 de Novembro. Não é que o vôo dura mais de 24 horas. Vou ter que fazer uma conexão em Miami de 6 horas (!!), e de lá vou pro Brasil. Como diria o Coringa: “Quer pagar taxa de estudante paga, mas depois aguenta as consequênciasssss…”.
Assim, tenho praticamente 3 semanas pra terminar a coisa toda, pois terei ainda que fazer toda a documentação do que eu fiz e etc. No estágio atual das coisas, eu diria que é possível, mas talvez esse seja meu último fim de semana sem ir pro Google.
Maratona de Programação
No dia 20 de Setembro aconteceu a fase sub-regional da Maratona de Programação, em Campinas. Nosso time não foi nada mal e ficamos em primeiro lugar

Ah, sim, eu tirei uma semana de folga do Google e voltei pro Brasil pra competir. Claro que além disso serviu pra matar um pouco da saudade de todo mundo.
Só pra constar, em segundo e terceiro ficaram times da Unicamp também, mas devido à regra de que na final nacional só podem ir dois times por escola, só vão dois times da Unicamp, e também um time da USP, que ficou em quarto.
Agora é correr pra terminar de preparar o material de apoio pra final, que será dia 15 de Novembro, em Vila Velha-ES.
Tênis de Mesa
Já faz um bom tempo atrás que encontrei uma galera (composta principalmente por chineses) que joga tênis de mesa do bom aqui no Google. Claro que me juntei à tchurma, e de vez em quando tiramos umas partidas bem bacanas. Aproveitei e trouxe minha raquete pra cá, pra relemembrar os felizes anos que eu treinava esse esporte de 3 a 4 vezes por semana. Quase certo que vou voltar pra algum clube de TT quando terminar a faculdade. Me ajudou bastante a aliviar o stress por aqui quando eu precisei
E bom, vocês sabem que Tênis de Mesa na China é que nem futebol no Brasil. Mas mesmo assim consigo jogar de igual pra igual (ganho as vezes, perco de vez em quando também). Nada além da obrigação de quem já treinou tanto isso.
Livros
Gastei… ehm… bastante comprando livros (a maioria eu já levei pro Brasil). Eu em loja de livros pareço mulher em loja de roupas em liquidação
Alguns livros de referências, outros de tecnologias que quero (ou preciso) aprender, e alguns até sobre o tema no qual pretendo trabalhar num futuro mestrado (programação genética), bem caros, por sinal.
Valeu a pena vir pra cá ?
Muitos amigos me perguntam se é legal, se vale a pena. Bom, legal é, mas é preciso deixar algumas coisas claras.
Existe um mito de que chegando aqui você vai trabalhar somente com hackers que só fazem coisas legais do jeito mais legal (não usando Java, por exemplo, hehehe), e que a cada 5 minutos as pessoas têm um estalo de uma nova idéia e revoluciona o mundo. Bom, a realidade é que os problemas encontrados quando você tá trabalhando aqui não são muito diferentes dos problemas que você encontra quando está trabalhando em outra empresa grande. Mesmo com as equipes aqui sendo pequenas (exitem equipes até de duas ou uma pessoa), na grande maioria das vezes o seu projeto usa ou está integrado com tecnologias desenvolvidas por outras equipes, então muitas reuniões são necessárias pra poder fazer uma integração correta. Ainda nesse ponto, muito do tempo gasto trabalhando é exatamente pesquisando como usar as tecnologias já existentes dentro do Google no seu projeto (isso é o que eu tenho feito desde que eu cheguei). Muitas vezes você encontra vários projetos que fazem aparentemente a mesma coisa, e é necessário uma análise mais detalhada pra saber qual é exatamente a diferença entre eles.
As idéias de produtos aqui dentro são, de fato, extremamente inovadoras. Mas o método de produção é relativamente padrão. Mas por se tratarem de produtos inovadores onde você precisa lidar com uma quantidade ENORME de informações e usuários, eles realmente precisam de pessoas de altíssimo calibre técnico que saibam como estruturar e usar essas informações (isto é, ser fluente em Estruturas de Dados e Algoritmos). Mas assim, não espere ter um quartinho isolado onde você poderá ficar programando em C puro ou assembler do jeito que você quiser. Vai ter que seguir muitas regras de codificação e etc (e eu concordo com isso. Não raramente você tem que ler códigos complicados que nunca viu na vida. Se não existisse padronização, a coisa ficaria bem mais lenta).
Mas se o processo de produção de software aí não é tão diferente assim, por que vale tanto a pena trabalhar lá? Vocês podem perguntar.
Bom, como eu já disse, apesar do processo ser relativamente padrão, os produtos e problemas enfrentados são inovadores. Você tem que lidar com centenas de milhões de usários que utilizam petabytes de informações, me mesmo assim tentar fazer a coisa toda funcionar rapidamente. Isso é um grande desafio que você não encontra muito em outras grandes companias. As pessoas à sua volta são extramamente qualificadas e criativas (quando isso se faz necessário). Além disso, muitas são famosas (pra computeiros). Já vi muito autor de livro que usei na faculdade trabalhando aqui, sem contar gente que inventou linguagens de programação bem famosas. Você tem à sua disposição uma infra-estrutura enorme de capacidade de processamento e coisas já prontas para não precisar ficar reinventando a roda.
Também vale a pena falar que o ambiente de trabalho é sensacional, como vocês já devem ter visto em centenas de reportagens que já fizeram por aqui. E eles pagam muito bem também, inclusive pra estagiário
Na qualidade de estagiário, uma coisa interessante que aconteceu aqui é que eu basicamente não mexi com nada do que eu já sabia quando cheguei (bom, eu precisei ligar o computador as vezes
). Tive que basicamente aprender tudo o que era necessário pra começar meu projeto, e adorei isso. Tivesse eu chegado aqui e simplesmente feito códigos e mais códigos em C++, eu não teria aprendido nada. Mas acabei aprendendo muita coisa. Antes de vir pra cá eu só tinha trabalhado em empresas pequenas ou pequenos projetos na universidade, na maioria das vezes trabalhando num projeto sozinho. Chegando aqui tive que aprender todo o processo, problemas e boas práticas de se trabalhar em equipe em uma grande empresa.
Precisei também aprender JavaScript (aprender bem), que eu não tinha curiosidade em aprender porque achava que tinha a ver com Java, mas felizmente não tem absolutamente NADA a ver, e é extramemente útil nos dias de hoje. Também fui exposto ao processo de teste de software, que pra quem não entende o que é parece algo imbecil, mas que de fato é mais complicado do que você pensa e de extrema importâcia se você quer fazer algo grande e que preste. Mas talvez o melhor de se estagiar aqui é que você é exposto a algumas tecnologias extremamente novas, e tem a ótima oportunidade de se destacar no futuro por saber tais coisas agora, que no futuro terão importância muito maior.
Sem contar que o inglês também deu uma melhorada considerável. Estou na fase de não precisar mais ficar pensando na frase antes de falar, apenas falo
.
Aliás, com relação a isso, aqui é que você vê como o ensino de inglês no Brasil é ridículo. Existem pessoas do mundo inteiro aqui, e mesmo as que chegam sem ter estudado universidade aqui, têm o inglês relativamente bom, pois aprenderam na escola normal (ginásio, colégio, etc) de maneira extremamente eficiente, inclusive a conversação. Já os brasileiros invariavelmente sofrem pra conseguir um certo nível de fluência, mesmo os que fizeram curso por fora. E eu percebi isso desde que fui pra Pensilvânia no ano passado. Mas como eu já disse, eu levei isso pelo lado positivo. Se mesmo tendo um inglês que não é 100% fluente, o meu supervisor (que foi meu entrevistador) me escolheu entre mais de 50 pessoas pra trabalhar no projeto dele, é porque algo de bom ele deve ter notado na entrevista
Mais pra frente, vou fazer entrevistas pra tentar uma vaga de efetivo. Porém, não vou tentar aqui, mas sim em Belo Horizonte. Alguns dos motivos que eu consigo citar são:
- Meu visto (J1) possui uma restrição de que eu não posso trabalhar nos EUA por dois anos depois que meu estágio terminar. Tem como fazer gambiarra em cima disso, mas eu não acho que valha a pena passar dor de cabeça por isso agora.
- Mountain View é uma cidade bonita, calma, onde as pessoas são certinhas. Mas o problema é que a cidade é calma demais (não tem nada aqui… só o Google. Essa cidade deveria se chamar Googletown) e as pessoas são certinhas demais
. Se fosse pra ficar nos EUA, eu iria preferir muito mais trabalhar no escritório de NY (já estive lá, visitando). Eles não têm um campus enorme como aqui em Mountain View, mas achei bem aconchegante e dentro de uma cidade que lembra um pouco o bom e belo caos de São Paulo. Mountain View é legal pra quem vai passar estágio de alguns meses e quer ficar perto do campus pra não depender dos onibus pra vir pra cá, mas eu não moraria aqui não, por maior que seja a qualidade de vida do lugar. Aliás, a maioria dos empregados moram em cidades adjacentes, mas mesmo essas ainda não me apeteceram muito.
- Eu não sou descolado (e tenho um orgulho tremendo disso). Eu gosto (e muito) da minha família. Se eu puder ter um nível de vida bom sem precisar morar tão longe deles, vou fazê-lo. Belo Horizonte são 7 horas de ônibus de São Paulo (devem ser 6 ou menos de carro).
- Eu QUERO fazer um mestrado. Talvez não imediatamente depois da graduação, mas quero. E eu realmente não tava afim de pagar US$ 60 mil por ano pra poder fazer isso. Ouvi falar muito bem da pós da UFMG na área que eu quero. Então não seria nada mal fazer lá.
- Meu inglês melhorou bastante, melhoraria ainda mais se eu continuasse aqui. Mas acredito que nunca ficarei 100% confortável falando nesse idioma, assim como eu noto que a maioria dos estrangeiros que estão aqui há anos também não ficam 100% confortáveis. Trabalhar no Google de qualquer lugar no mundo exige que você se comunique o tempo todo em inglês, inclusive em BH, mas eu acho que me sentiria muito mais confortável podendo falar português pelo menos quando fosse almoçar com os colegas, ou quando precisar falar com o dono do apto que você aluga e ele não falar uma mistura bisonha de chinês e inglês com você.
- Aqui em Mountain View, ganha-se muito bem (mais do que em BH, falando em termos absolutos). Mas gasta-se muito bem também, principalmente com aluguel de casa e apartamento (comprar casa? Hahaha… só se você for MUITO rico ou trabalhar especificamente com investimento em imóveis). Eu tenho impressão que o poder de consumo do salário pago no Brasil acaba sendo um pouco maior, pois coisas essenciais (como comida, imóveis, serviços médicos, serviços bancários, etc) são bem mais baratos aí. Aqui vale a pena se você gasta 80% do seu salário com eletrônicos e roupas de marca. Mas esse definitivamente não é meu caso
- Recessão. Existe um risco de dar recessão aqui. Eu não acredito que isso não afetaria o Brasil, mas acho que afetaria em escala menor do que aqui (afinal, não temos tanto dinheiro assim pra perder como eles têm, haha). E se é pra dar merda no mundo todo, que pelo menos esteja por perto da família.
- A Rússia é perto daqui. Se rolar guerra, fudeu
Apesar de tudo isso, não excluo a possibilidade de num futuro tentar transferência pros EUA (ou Europa. Sempre tive vontade de morar na Irlanda por um tempo, e tem Google lá também), talvez quando estiver com as coisas mais estabilizadas, com um mestrado e etc (e depende da patroa também, claro).
Isso tudo, é claro, depende de eu conseguir ou não a tal vaga de efetivo. Eu não sei como vai acabar saindo meu projeto de estágio aqui, e isso eles vão levar em conta. Mas se não conseguir, também não é o caso pra ficar decepcionado nem coisa do tipo. Uma coisa boa (eu achei boa) de vir estagiar aqui é que meio que “perde a magia”. Não que eu não ache mais que é um ótimo lugar pra trabalhar. É sim, o melhor lugar que eu consigo visualizar nesse momento, mas não é o objetivo da minha vida. Não vou criar um website chamado www.euquerotrabalharnogoogle.com pra implorar por isso (esse site existe!). Se não der, eu gostaria muito de voltar a trabalhar com jogos, por exemplo. Ou até botar em prática alguns projetos de start-up que eu tenho. Acho que depois do estágio, as opções se abriram devido à quantidade de coisas que aprendi por aqui.
É isso. Estou voltando em breve. Preparem o carvão